ENTREVISTA: LIAO YU CHIEH, educador financeiro do C6 Bank

 

ZENTA: Pensando nas pessoas e famílias que se veem em uma nova condição financeira, em decorrência da pandemia, com perda de emprego, de clientes ou de um trabalho, como começar a lidar com a situação atual?

 

LIAO YU CHIEH: O ponto número um é mapear as despesas. (Acesse a planilha em  https://drive.google.com/file/d/1Rg617_LbpeCXrScrnglCw59zH_e22nms/view).

Não adianta arranjar um trabalho, um bico, sem saber para onde vai o dinheiro depois. Normalmente as pessoas tomam um susto. Acham que gastam apenas o essencial, que estimam em "x", e percebem, quando fazem o mapeamento, que gastam três ou quatro vezes mais.

 

Z.: Como ocorre essa diferença tão grande? O que estamos esquecendo?

 

L.Y.C.: Geralmente você se lembra dos presentes mais importantes, como de aniversário do filho, de Natal, mas esquece muitos outros. Mapeia o presente, mas deixa de colocar os gastos com a festa. Outros exemplos: mimo que você leva em visitas (vinho, chocolates), um doce para colegas de trabalho, presentes de um modo geral, ovos de Páscoa para as professoras, panetones para os porteiros, presentinho para manicure e cabeleireiro, a cerveja que leva para o churrasco, doação, dízimo, sobremesas, lanchinhos comprados na rua. Podemos levar um susto no fim do mês com essas despesas. Mapeando, começamos a descobrir outras coisas que não contabilizamos.

 

Z.: Como se adaptar a uma nova situação, mais difícil?

 

L.Y.C.: Feito o mapeamento, a pessoa tem que entender que está em um momento de crise econômico-financeira. É como estar em um momento de guerra, quando não podemos ter todos os gastos de antes. Algumas despesas totalmente aceitáveis quando não há crise agora são considerados luxos. Por exemplo: será que ter duas assinaturas de TV por streaming faz sentido atualmente? Você prefere ficar com as duas e ter uma dívida no cheque especial? Ou deixar de pagar o cartão de crédito? 

isso pode dobrar ou triplicar suas dívidas. 

 

Z.: Se você passa a viver no limite, quais as orientações para passar por isso?

 

L.Y.C.: Para algumas pessoas, ainda "não caiu a ficha". Até dentistas estão sem clientes. Precisamos ficar atentos! Então é importante ter em mente que isso é uma situação passageira e que se deve tomar as medidas necessárias para que você não quebre. Não é ignorar a saúde mental! Você deve criar alternativas para estar bem, ao mesmo tempo em que faz alguns cortes de gastos que podem ser chamados de quase luxo em épocas de crise. Nesses momentos, a criatividade também tem papel fundamental. Uma iniciativa pode ser a troca de livros, por exemplo.

 

Mapeei, estou enxergando onde estão meus principais gastos. E agora começo a cortar as despesas que não afetam a minha qualidade de vida. Por exemplo: trocar de operadora de celular, de plano de dados. Ligue, troque, renegocie. Se você ficar parado, já está pagando a mais. Eu troquei de operadora no mês passado. É apenas um pequeno trabalho operacional e a troca não prejudica em nada a sua vida.

 

Um outro gasto que acaba assustando é pedir comida por aplicativo. Muita gente comenta que não fazia ideia que gastava tanto. Por que, então, não cozinhar mais em casa? Melhor ainda se já fizer uma quantidade maior para congelar, para cozinhar com menos frequência e gastar ainda menos.

 

Z.: E qual seria o próximo passo? 

 

L.Y.C.: Esses cortes sem afetar a qualidade de vida têm um limite. Chega uma hora em que é preciso cortar mais. E aí eu começo pelos cortes em que consigo economizar muito com um decréscimo pequeno na qualidade de vida. Se esse corte causar depressão, não é o caso que estamos falando aqui.

 

Z.: E se isso não for suficiente? 

 

L.Y.C.: Será preciso cortar mais na carne, mas ter consciência que isso é temporário, para os próximos meses, um ano. Neste passo, se perde um pouco a qualidade de vida, mas sempre vendo como compensar para garantir sua saúde mental. Por exemplo, buscar um hobby que custe menos ou até possa gerar renda, fazer um trabalho voluntário que traga satisfação, ajudar quem tem menos, pensar em um projeto, correr na rua com os vizinhos. 

Tem gente com um padrão de vida alto, quando está em um cargo bom, em uma grande empresa. Quando deixa a posição e começa a empreender, a renda cai para zero. Em compensação, a qualidade de vida pode melhorar muito. Então é fundamental pensar que a saúde financeira tem que vir junto com a saúde mental e a física. Isso é um tripé.

 

Z.: E para o público maduro, alguma dica especial?

 

L.Y.C.: Na média, o público maduro cozinha muito bem! Na verdade, quando a gente pensa em comida boa, pensa em comida de mãe, de avó. 

 

Z.: Vemos isso em nossa Comunidade Zenta. Muita gente empreendendo em áreas que domina, e uma delas é a da gastronomia.

 

L.Y.C.: Infelizmente há preconceito de idade, mas tem que usar a idade a seu favor, aproveitar essa fama para vender pratos, bolos.

Nós sabemos que a situação em geral está difícil. A pessoa pode ser super competente e estar sem trabalho. Nós temos pouco controle de nossa receita e total controle de nossas despesas. Então a orientação é seguir esses passos para fazer os cortes necessários para passar por essa fase de crise.

Dinheiro
Como manter o equilíbrio entre saúde mental, física e financeira em tempos de crise
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