Geriatria
Conheça hábitos e comportamentos para uma vida mais longeva e saudável

ENTREVISTA - DR. MARCELO DRATCU, MÉDICO ATUANTE NAS ÁREAS DE MEDICINA COMPORTAMENTAL E DE FAMÍLIA

 

O Portal Zenta recebe o Dr. Marcelo Dratcu para uma entrevista exclusiva sobre as questões essenciais da geriatria, especialidade médica que trata da saúde e do bem-estar do idoso, considerado o 60+. A geriatria e a clínica médica fazem parte da medicina de família. Confira:

 

Z.: Que doenças costumam aparecer com mais frequência com o envelhecimento?

 

M.D.: No idoso encontramos frequentemente problemas de saúde crônicos que, muitas vezes, se manifestam na vida adulta e podem ser controlados, mas não desaparecem, como Hipertensão Arterial, Diabetes, Doença Renal e a chamada Doença Aterosclerótica, que acomete os vasos sanguíneos – especialmente em pessoas com colesterol alto – e pode causar eventos graves, como o infarto do miocárdio e o AVC (derrame). Além disso, como decorrência do envelhecimento dos órgãos e tecidos, há o aparecimento – e/ou agravamento – de doenças da visão, audição, aparelho músculo-esquelético (incluindo osteoporose e artrose), problemas neurológicos e cognitivos – como a Doença de Parkinson e as chamadas Demências, dentre as quais a Doença de Alzheimer.

 

O idoso também enfrenta muito problemas de saúde decorrentes do envelhecimento do sistema imunológico, reumatológico (como as artrites) e lesões por esforço físico ou por quedas. As doenças neoplásicas também são mais comuns nessa fase de vida do que no adulto jovem, incluindo as que acometem o sangue. 

A saúde e o bem-estar também dependem muito dos hábitos dos idosos, então o idoso tabagista, estressado, que não dorme bem ou não tem uma dieta adequada tem muito mais chances de ter problemas cardíacos, obesidade, diabetes e tantos outros, obviamente.

 

Z.: Que hábitos devemos adquirir para uma vida mais longeva? Como podemos nos prevenir em relação às doenças degenerativas? 

 

M.D.: Os principais pontos, acredito eu, para esses cuidados, são: 

 

1. Acompanhamento com seu “médico de confiança”

Primeiramente, a criança, quando deixa de ir ao pediatra, deve passar a ir a um clínico geral ou médico de família e, quando se torna idoso, ao geriatra. No caso das mulheres, também ao ginecologista. Os check-ups devem ser realizados pelo menos anualmente, para aqueles que não têm problemas de saúde.

 

2. Tratamentos

Outra coisa muito importante é a questão de não abandonar nenhum tipo de tratamento sem antes falar com o seu médico. É muito comum o idoso fazer tratamentos medicamentosos e não medicamentosos de longo prazo (para doença crônica degenerativa, por exemplo, que em geral não tem cura, mas tem controle, como o diabetes e a hipertensão arterial), e acaba muitas vezes abandonando o tratamento (seja ele remédio, fisioterapia, nutrição, atividade física, ou outros). O abandono normalmente está ligado à percepção da pessoa de que não corre mais riscos ou à interferência de terceiros (por exemplo, alguém da família disse que aquele remédio não é bom e ele deve parar), ou porque cansou de tomar vários remédios, ou ainda por não conversar com seu médico sobre eventuais efeitos colaterais. Portanto jamais abandonar um tratamento! Tudo isso sempre deve ser discutido entre o paciente e seu geriatra.

 

3. Automedicação 

Outra coisa que eu recomendo é jamais fazer automedicação. Ela é muito perigosa e pode trazer graves danos ao paciente, muitas vezes piorando a sua condição de saúde. O medicamento que é bom para uma pessoa ou específico para um certo problema de saúde pode ser inerte ou extremamente prejudicial para outros.

 

4. Hábitos saudáveis - alimentação, hidratação, sono, atividade física e controle do estresse

Temos também que lembrar dos hábitos saudáveis, que são tanto tratamento quanto prevenção para todo tipo de doenças. 

A alimentação deve ser customizada de acordo com cada pessoa, assim como também todos os outros tratamentos, mas, no geral, deve-se evitar o sal, alimentos gordurosos, frituras, carboidratos refinados - como farinha branca e açúcar cristalizado – e alimentos ultra-processados (industrializados). O ideal, junto com o geriatra, é ter um acompanhamento nutricional. 

A hidratação também é fundamental! A desidratação ocorre com certa frequência e pode causar danos agudos graves (podendo até parar no pronto-socorro). 

O sono é muito importante. Existe uma tendência de piora da qualidade do sono, mesmo que o idoso passe mais tempo na cama. Isso deve ser muito bem visto e ajustado, principalmente agora na época de Covid, em que as pessoas ficam mais em casa, com menos atividades. 

O controle do estresse e da ansiedade é fundamental. Isso deve ser feito com profissional especializado quando indicado pelo geriatra ou pelo clínico. 

E, obviamente, atividade física, que no idoso tem uma importância ainda maior do que no adulto, porque o idoso tende a perder massa magra, como a musculatura, tende a desmineralizar os ossos, tendo osteopenia e osteoporose, e isso pode acontecer tanto no homem quanto na mulher. A atividade física é fundamental para manter esses tecidos para ajudar aquele que é hipertenso, que é diabético, que é obeso, que tem tendência para doença cardiovascular, e para a parte cognitiva, para o humor e para o bem-estar de forma geral.

 

5. Combate à depressão, ao isolamento e à solidão

Muito importante!

O idoso lida com muitas perdas - desde o adoecimento ou falecimento de pessoas queridas até a perda de autonomia, passando pela aposentadoria e, não raramente, por diminuição do padrão de vida. A sensação de frustração, solidão e impotência leva à tristeza e ao desânimo, mas também vemos o aparecimento de depressão clínica e transtornos de ansiedade.

A participação da família é fundamental, com compreensão, paciência, empatia e compaixão!

Dr. Marcelo Dratcu é médico formado pela Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo (EPM-UNIFESP), com residência médica em Medicina Preventiva e Social (EPM-UNIFESP), especialização em Medicina Comportamental pelo Depto. de Psicobiologia (EPM-UNIFESP), título de Especialista em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica e Pós-graduação em Gestão de Sistemas de Saúde pelo Galillee College em Israel. Realizou Elective Program Rotation in Preventive Medicine na University of Manitoba no Canadá, Nutrition and Wellness Experience no Rehnborg Center e Cognitive-behavioral Therapy training no Neurobehavioral International Institute nos EUA. Autor do livro “Por que não me disseram isso antes!” sobre saúde, comportamento e produtividade, atualmente exerce suas atividades assistenciais no Hospital Israelita Albert Einstein, onde é integrante dos Grupos Assistenciais de Obesidade, Risco Metabólico e Cardiovascular e Memória e Cognição, e coordenador de cursos de atualização pelo setor de Ensino.

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