Habilidades cognitivas
Jogos e desafios diversificados estimulam foco, planejamento estratégico e raciocínio lógico

ENTREVISTA: SHIRLEY JUNGMAN SACERDOTE, CONSULTORA PEDAGÓGICA

ZENTA: Como você trabalha o estímulo cognitivo para o público Zenta?

SHIRLEY JUNGMAN SACERDOTE: Ofereço oficinas de estimulação cognitiva, que propõem diversos desafios, com jogos bem divertidos, lúdicos, como os de raciocínio. Estes jogos são trabalhados com uma intencionalidade e com objetivos muito claros de quais habilidades cognitivas eu quero desenvolver no planejamento, naquele dia, e outros desafios diversos, como de percepção visual. Utilizo exercícios de uma metodologia muito eficiente, desenvolvida pelo Instituto Feuerstein, em Israel, chamada de Programa de Enriquecimento Instrumental (PEI). Nessa quarentena, busquei mais materiais, os organizei e digitalizei. Assim, consegui trabalhar com os participantes pela plataforma zoom.

A oficina é estruturada da seguinte forma: no início, sempre temos uma conversa para saber como cada um está. Este é um momento em que aqueles que querem podem compartilhar as dificuldades ou as conquistas que aconteceram durante a semana que passou. Eu escuto cada pessoa e depois, na sequência, apresento um desafio. No final da oficina, a gente tem uma reflexão profunda e tira um aprendizado da vivência que fizemos.

 

Z.: Que tipos de habilidades você ativa com o jogo "Matador"? 

S.J.S.: "Matador" é um jogo que eu gosto muito, porque traz uma memória de infância. Mais de 90% das pessoas têm uma familiaridade e uma memória do jogo de dominó. E o que eu acho muito legal desse jogo é que são utilizadas as peças do dominó, mas com outras regras, e isso gera, primeiramente, flexibilidade cerebral, estimula o raciocínio lógico e demanda planejamento estratégico. Isso porque a nossa tendência é ir lá e colocar a peça igual, e não é assim. A gente tem que parar, pensar, resgatar a regra e fazer a jogada, e isso é maravilhoso. Já trabalhei com idosos com princípio de demência e de Alzheimer, e percebi que o jogo foi estimulante.

 

Z.: E com o jogo "Quatro Cores"? 

S.J.S.: O "Quatro Cores" é chamado de jogo, mas eu o considero um desafio. A gente trabalha com as quatro cores, temos as regras, mas para fazê-lo é preciso pensar em uma estratégia. Quem não fizer isso, acaba usando o método "tentativa e erro". Claro que, com os modelos mais simples, é fácil bater o olho, ter uma visão geral do jogo e aí começar a pintar com as cores. É interessante observar como cada pessoa usa diferentes estratégias para resolver o desafio com eficácia. Ele exige do jogador antecipação de jogada, estratégia e organização. Entre as diversas habilidades estimuladas pelo "Quatro Cores", além das citadas, destaco orientação espacial, raciocínio lógico e concentração.

 

Z.: Quais são as habilidades mais importantes para estimular na "fase do Zenta" (depois dos 40, mas principalmente 50+)?

S.J.S.: Tem tantas habilidades que a gente tem que trabalhar… A diversidade de propostas, na minha opinião, é o mais importante. Tem gente que joga buraco, tranca, mas só joga o mesmo, sempre. É sabido que estimula toda a parte de raciocínio lógico, de memória, mas, na minha opinião, devemos jogar "Quatro Cores", "Matador", Tranca, Triminós, Rummikub, Tangram. A diversificação de desafios, de jogos, de estimulação é que provoca o benefício. Temos algumas habilidades, facilidades, que estão lá no cérebro, mas estão adormecidas e, se a gente trabalha sempre com as mesmas, vamos deixar de acessar outras áreas. 

Aquele desafio que te dá preguiça, que faz você pensar que não vai fazer por não ser bom naquilo, é justamente este que tem que trabalhar. Na maioria das vezes, é essa habilidade que precisa de estimulação. Então eu brinco, falo para as pessoas "xô preguiça, tira a preguiça de lado e vamos embora nesse desafio". Como mediadora, acrescento que "eu estou aqui, eu vou te ajudar e você vai conseguir"!

 

Z.: A quem é dirigido o trabalho de estímulo cognitivo? 

S.J.S.: Desde o início do trabalho, o público a que me propus é o 50+, 60+, 70+. Quer dizer, 50 em diante. Mas, pensando hoje, se alguém com 40, 45 anos, quiser começar a se desafiar, é tudo de bom também. Só há benefícios. Acabamos falando 50+ por ser uma idade em que muita gente começa a fazer reclamações como "a minha memória não está a mesma", "puxa, eu estou tendo dificuldade nisso, que eu não tinha antes".

 

Z.: Pode nos contar de algum exemplo de resultado que vê no trabalho de estímulo cognitivo?

S.J.S.: Tenho uma infinidade de retornos positivos e posso contar alguns: "as oficinas me ajudaram na concentração, a enxergar e melhorar meu dia-a-dia", "me estimularam a manter o foco em várias situações", "me diverti". Uma pessoa fez uma análise interessante: "Tive uma percepção da minha falta de foco quando faço várias coisas ao mesmo tempo. Já tive um impacto positivo em minha rotina. Mas ainda tem coisas para melhorar". Adoro esse tipo de comentário, pois sinto que essa busca pelo aprimoramento constante é maravilhoso! Essa é uma das intenções da proposta! 

 

Regras dos jogos citados:

 

"Matador" - Objetivo: Obter 7 na soma das peças

O jogo assemelha-se ao dominó tradicional, mas a ideia, ao se colocar a peça, é somar 7. 

Exemplo: Se o primeiro jogador puser a peça cinco e dois, devemos colocar uma pedra que tenha dois ou cinco, de modo a fazer sete com um dos lados da primeira pedra colocada. Suponhamos que o segundo jogador colocou o dois e seis, então os números finais serão 6 e 2, sendo necessário por 1 ou 5 para somar 7. Quando fica um "branco" em uma das extremidades, desse lado o jogo está fechado e só com um "matador" pode continuar. Os matadores são quatro: duplo branco e as três peças, cujos pontos somam o número 7. Pode-se jogar um matador em qualquer ocasião.

 

"Quatro cores" - Objetivo: Pintar uma figura toda, que está dividida em várias partes, utilizando apenas quatro cores, de modo que não se repita a cor em regiões vizinhas.

Material necessário: Papel, lápis de cor, giz ou canetinhas de quatro cores diferentes.

Benefícios: Orientação espacial, raciocínio lógico e estratégia de ação.

Fonte: "Quatro cores, senha e dominó"- Lino de Macedo, Ana Lúcia S. Petty, Norimar C. Passos - Casa do Psicólogo 1997

 

Shirley Jungman Sacerdote é pedagoga especializada em educação Infantil e ensino fundamental em Jerusalém, Terapeuta Familiar, mediadora do Programa de Enriquecimento Instrumental pelo ICELP de Jerusalém. Diretora  do Curso de Cultura Judaica Kitá Legal por 28 anos.

Certificada em práticas colaborativas e dialógicas pelo Taos Institute & Houston Institute. Atua como Consultora Pedagógica, atendendo pais de alunos, e como mediadora e psicopedagoga, atendendo alunos e adultos 50+/60+ para aprimoramento das habilidades cognitivas .

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