Dr. Luis Paves fala a respeito de tratamento de catarata e novos estudos sobre colírios



ENTREVISTA - DR. LUIS PAVES, MÉDICO OFTALMOLOGISTA

ZENTA: Quais os principais temas da Oftalmologia que chamam mais a atenção nessa época em que se fala tanto de longevidade?

DR. LUIS PAVES:: As doenças mais frequentes na população depois de certa idade são a catarata e a degeneração macular relacionada à idade. A catarata hoje é a principal causa de cegueira reversível no mundo inteiro. Como a longevidade aumentou bastante nos últimos anos, o aparecimento de doenças degenerativas também vem apresentando crescimento, não só no Brasil, mas também nos países desenvolvidos.

Z.: A catarata é a doença mais frequente?

L.P.: É a causa de cegueira mais frequente. No Brasil, também é uma das principais causas de baixa de visão.

Z.: Há estudos que levam aos motivos para o aparecimento da catarata?

L.P.: Hoje o principal fator que leva ao surgimento da catarata é a própria idade. Estudos mostram que ela vai aparecer em todas as pessoas. Em algumas, mais cedo. Há casos a partir dos 40 anos, mas a maior frequência é em pessoas acima dos 60, com aumento da frequência nas próximas décadas de vida.

Z.: O que significa ter catarata?

L.P.: Dentro do olho existem várias estruturas. Uma delas é chamada de cristalino. Ele é uma lente transparente, ou seja, permite a passagem de luz para que chegue uma imagem nítida dentro do olho. Na catarata, você começa a perder a transparência dessa lente. Ela vai ficando mais opaca, fazendo com que a quantidade de luz que chega até o olho diminua bastante. Então, o primeiro sintoma dos pacientes que têm catarata é a baixa de visão em ambientes com pouca iluminação. É como se você tentasse ver através de um vidro embaçado. Você consegue enxergar o que tem através do vidro, mas perde um pouco a nitidez das imagens.

Z.: Há como prevenir a catarata?

L.P.: Não há prevenção. Até o momento foram estudados vários tipos de meios para a prevenção, por exemplo com colírios, mas hoje se sabe que esses tratamentos não têm efeito. O que existe é o tratamento corretivo. Há alguns fatores que estão associados ao aparecimentos mais precoce da catarata. Algumas medicações, como o uso de cortisona, podem antecipar o surgimento da doença, assim como pacientes que têm diabetes descontrolada também podem ter o surgimento de catarata mais precoce. Fazer um bom controle da diabetes e evitar o uso prolongado de cortisona são boas maneiras de postergar ou de não antecipar o aparecimento da catarata.

Z.: Como é o tratamento?

L.P.: Hoje é cirúrgico. O mais importante é determinar quando a pessoa vai poder operar, porque a catarata tem um aparecimento muito lento. Ela surge em um grau muito leve e vai evoluindo até um estágio em que a visão fica impossibilitada. É possível chegar a um grau tão grande que a pessoa não consegue se locomover. Entre o aparecimento e esse ponto às vezes há uma progressão que demora anos. Ou seja, é nesse período que nós vamos decidir quando é melhor fazer a cirurgia, e isso será feito de acordo com as queixas de cada paciente. Se uma pessoa dirige, é muito ativa, estuda, trabalha, pode precisar de uma cirurgia mais cedo. Há outras pessoas que ficam mais em casa, não dirigem, não têm tantas atividades, então acaba-se postergando a cirurgia.

Z.: Como o paciente sabe que está com catarata, o que o leva a procurar o oftalmologista, já que significativa parte da população não vai com frequência a esse profissional, por diversos fatores?

L.P.: Ele deve observar os sintomas. O principal é a dificuldade de enxergar, o embaçamento, a dificuldade de ver à noite, ter uma visão turva. Nesse momento ele pode começar a desconfiar que tem catarata. Aí é preciso marcar com o oftalmologista para fazer uma avaliação, porque pode haver outras doenças junto com a catarata que também prejudicam a visão, então temos que separar a catarata dessas outras. Nessa avaliação, o oftalmologista irá conversar com cada paciente para que, conforme suas atividades, defina qual será o melhor momento para fazer a cirurgia. Muitas vezes acaba-se postergando a operação por anos porque a pessoa tem uma boa qualidade de visão e não tem dificuldade de enxergar.

Z.: Existe algum sinal externo que outra pessoa possa perceber para levar um parente ao oftalmologista, para o caso de o próprio paciente não reclamar de nenhum problema na visão?

L.P.: Alguns sinais podem servir de alerta. Por exemplo, se a pessoa mais idosa começa a tropeçar muito, começa a esbarrar muito nas coisas, não vê degraus. São sinais indiretos de que a visão não está indo bem. Ou mesmo para uma pessoa que lia bastante e deixa de ler. Às vezes a pessoa não reclama, mas é um sinal de baixa de visão. A pessoa acaba ficando desestimulada de ler, porque começa e acaba cansando, não enxerga e decide largar. A mudança do hábito pode ser um indicativo indireto de baixa de visão. O fato de alguém querer sentar mais perto da TV também pode indicar problemas como queda de visão, ou mesmo de audição.

Z.: Dado o aumento da longevidade, existe um avanço em pesquisas nessa área, algo que se espera?

L.P.: Sim, há pesquisas com medicamentos, com colírios que vão retardar o aparecimento da catarata e pesquisas de colírios que conseguem reverter os graus iniciais de catarata, mas isso ainda vai levar alguns anos para ter resultados mais fidedignos e até ser lançado no mercado. A cirurgia avançou muito nos últimos 30 anos. Antigamente, a recuperação era mais prolongada, de semanas, até de meses antes de recuperar a visão. Hoje, uma cirurgia é feita com anestesia local, com duração de 20 a 30 minutos, e uma recuperação da visão geralmente em menos de uma semana.

Dr. Luis Paves é médico oftalmologista da Lotten Eyes e Especialista em Oftalmologia pela Escola Paulista de Medicina.

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