Andi Rubinstein, treinadora de imaginação



A artista, contadora de história e bonequeira Andi Rubinstein viajou pelo mundo, apresentando-se em festivais. Ganhou prêmios em vários países, como na Sérvia e no Canadá. Tem formação internacional, mestrado em teatro de bonecos nos Estados Unidos. Deixou a carreira de arquitetura para seguir a de artista.

ZENTA: Andi, por que histórias para adultos?

ANDI RUBINSTEIN: Porque a gente é feito de histórias, é a somatória das histórias que contaram para a gente sobre nossa família, sobre o que nós somos, e a gente acaba acreditando. Por exemplo, “todo mundo na família é bom de matemática”. A gente vai acreditando e viram nossas próprias histórias também.

Z.: E o que elas nos trazem?

A.R.: Muitas vezes, essas histórias têm coisas maravilhosas que nos abrem portas (por exemplo, todo mundo na minha família pode comer o que quiser e não engorda) e tem outras histórias que são negativas (por exemplo, "artista é preguiçoso", ou "é impossível viver de arte"), que fecham portas, que nos falam para tomar cuidado, falam “não vai lá”.

Ao longo da vida procuramos nos dar conta das histórias e podemos ficar com elas se fazem bem e, se não, podemos contá-las de outra maneira.

Além dessas histórias que nos contaram e que contamos para nós mesmos, existem os grandes contos do mundo, de sabedoria, de fadas. Eles servem para nos conectamos com a sabedoria mais profunda, a sabedoria que está dentro da gente. Eles dizem respeito à raça humana, não é mais daquele certo povo, daquela nacionalidade. Poderia ser de qualquer sábio, de qualquer povo, por exemplo. Na hora que você escuta uma história dessas, você se conecta, você sabe.

Hoje se veicula muito a importância de contar histórias para crianças, e aí elas estão garantidas, vão ouvi-las. Mas, na origem, as histórias não são para crianças, são para todos, cada um em seu estágio de desenvolvimento.

Z.: Por que você diz que os adultos (e o mundo) precisam muito de histórias?

A.R.: Porque elas despertam na gente a relação com a nossa potência, o desejo de acreditar que ainda é possível. Por exemplo, o relato de uma pessoa que ouviu uma história aos 65 anos e decidiu que quer aprender a andar de bicicleta. Se a gente acha que está velho, que não pode, a vida vai ficando sem perspectiva de novidade, de transformação. Mas a gente está sempre se transformando como ser humano. Você tem sonhos e, se não tomar uma atitude, ninguém vai fazer por você.

As histórias fazem isso de duas maneiras. A primeira é a seguinte: o que elas contam acorda na gente um desejo, uma vontade de encontrar um tesouro dentro de nós, e, à medida que você escuta, você vai fazendo paralelos com a própria vida. Toda história é uma história de vida. Número dois, muito poderosa: treinam a sua imaginação. Quando eu falo “era uma vez uma montanha de ouro”, você faz uma uma sinapse cerebral de montanha e de ouro, que são coisas que você já viu separadas, mas nunca juntas. O mesmo acontece se você ouvir “casa de doces”, “mar de lágrimas” ou “corda de diamantes”. É através desse treino que você pode mudar o mundo. Imaginar, ver, realizar. Alguém imaginou que podia apertar um botão e acender a luz; ou uma carroça sem cavalo; ter calor fora e um ambiente fechado fresquinho. Isso no âmbito das invenções físicas. Alguém imaginou que as mulheres podiam votar, que podiam escolher com quem iam casar.

O ser humano tem a capacidade de imaginar, o que nos diferencia de outros animais. As histórias treinam a sua imaginação. Acordam nos adultos a sua possibilidade de imaginar. Se o adulto falar que vai dormir na caixa de fósforo, vão achar que é maluquice. Precisamos nos lembrar da possibilidade de despertar a criança dentro da gente: aquela que ainda imagina livremente, que acredita na magia e potência do mundo. A gente esquece, pelas dificuldades e durezas da vida. Se focar nisso, a vida fica muito triste. A gente não acorda só para pagar conta, comer, dormir. A gente quer estar vivo, quer fazer essa conexão mágica.

Z.: Como contar bem uma história?

A.R.: Para quem quer contar, a melhor dica é você amar a história que está contando, acreditar que ela merece ser contada. Vocabulário, tempo e abstração são diferenças na contação para crianças e adultos. O ouvinte tem que abstrair, a partir das palavras que ele conhece. O maior elogio é quando os adultos falam que se sentem como crianças. Vale contar histórias para todo mundo. Quando você falar “era uma vez”, vamos combinar que a gente já está brincando!


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