Medicina preventiva mostra como antever doenças crônicas



ENTREVISTA: DRA. CLAUDIA KLEIN, NEUROLOGISTA


ZENTA: O que é medicina preventiva?


DRA. CLAUDIA KLEIN: Para entendermos melhor o conceito de Medicina Preventiva, me lembro de uma palestra que vi em 1998 que me marcou muito, do psicólogo e antropólogo transpessoal Roberto Crema. Ele relatou o seguinte:

"Estamos vivendo um período de crise em todas as esferas. Vivemos em um tempo em que perdemos a nossa escuta interna. Certa vez perguntaram para um Índio, um pajé de 101 anos:

– O que você faz?

Ele disse:

– Eu ensino meu povo.

– O que você ensina?

– Quatro coisas, ele respondeu: primeiro, a escutar; segundo, que tudo está ligado com tudo; terceiro, que tudo está em transformação; quarto, que a terra não é nossa, nós é que somos da terra."

Percebemos que tudo começa pela escuta! Esta escuta interna que perdemos ao longo do tempo é que nos informa a homeostase e o equilíbrio do nosso corpo.

Tudo está ligado com tudo: um espirro na Ásia leva a uma pandemia no Ocidente.

Porém tudo está em transformação. Estamos sendo impelidos a sermos quem realmente somos e a olhar para as nossas questões internas de outra maneira.

A terra não é nossa, nós é que somos da terra.

É desta questão de pertencimento que fala a medicina preventiva.

Na minha prática clínica, tento unir os saberes ancestrais com os saberes da neurociência e da medicina preventiva, para que possamos estar na excelência das nossas condições.


Z.: Poderia falar um pouco para o nosso Portal sobre o novo conceito de inovação disruptiva?


C.K.: Esse novo conceito prima pelo olhar de novo para o Ser Humano. Como será a Era pós digital? Vamos começar com um teste simples:

1. Sente fadiga matinal ou no decorrer do dia?

2. Tem dificuldade para acordar pela manhã?

3. Só se sente “acordado” após as 10 horas?

4. Produz melhor no período da tarde?

5. Se sente cansado novamente perto das 21 horas, mas resiste para dormir?

6. Percebe um pico de produção física e mental à noite ou pela madrugada?

7. Identifica sobrecarga de trabalho?

8. Tem certa incapacidade de lidar com o estresse, sentindo uma irritação demasiada?

9. Sofre com desejos por alimentos salgados ou doces repentinamente?

10. Anda tendo resfriados ou infecções constantes?


Como envelhecer ficando jovem, se “ficar jovem” leva tempo e dedicação?!

Estudos dizem que gastaremos quase todo o nosso dinheiro adquirido no decorrer da vida em nossos últimos anos para o tratamento de doenças. Então por que não reformulamos esse mindset de tratar doenças para passarmos a investir na saúde com a ideia da prevenção?

Para isso, temos o dever de usufruir de tudo o que a tecnologia pode nos oferecer, não esquecendo de voltar o nosso olhar também às necessidades de escuta do nosso corpo. Olhem um pouco para o panorama futuro à nossa disposição. São infinitas as possibilidades de cuidados para com o nosso bem-estar.


É necessário contemplar o indivíduo saudável em seu corpo, mente e espírito, unindo conhecimentos das neurociências da medicina com saberes ancestrais, em prol de uma vida usufruída com excelência.


Z.: Como um "simples" exame de sangue ou mesmo outros exames de rotina podem prever doenças futuras?

C.K.: Um conceito muito importante da medicina moderna é o da Inflamação crônica subclínica.

O desequilíbrio desses fatores pode levar a um processo inflamatório crônico que, aparentemente, não causa sintomas, porém é um grande gerador de doenças crônicas.


VIDE GRÁFICO 1




Mais de 50% dos nossos hábitos modificam a nossa saúde. Abaixo, alguns fatores epigenéticos que podem ser externos ou internos, sendo sempre modificáveis:

- hormônios;

- substâncias psicoativas (álcool, drogas, cigarros);

- flora bacteriana intestinal;

- relacionamentos;

- atividades físicas e aprendizado de novos movimentos;

- treinamento cerebral e meditação.


Observando os parâmetros não ideais nos exames de sangue, embora por muitas vezes normais, podemos diagnosticar essa inflamação subclínica e antever a possibilidade de doenças crônicas com muitos anos de antecedência, como Diabetes, Hipertensão Arterial, Hiperlipidemia, causando infartos, AVCs, doenças psicoemocionais, neurodegenerativas, autoimunes.


Z.: Como analisar os números de referência dos resultados de exames? Qual é a diferença entre a referência e o ideal?

C.K.: Os valores de referência dos exames são dispostos em uma curva de Gauss, como nesse gráfico:


VIDE GRÁFICO 2



Os valores próximos ao mínimo ou ao máximo, em muitas situações, podem demonstrar uma incapacidade do nosso organismo de manter a homeostase e o equilíbrio. E, se não fizermos nada, estaremos esperando o desequilíbrio, que poderá atingir uma doença crônica.


VIDE GRÁFICO 3




Então, por esse gráfico, podemos verificar que os parâmetros ideais são bem mais estreitos do que os parâmetros da normalidade. E é nessa qualidade de vida que devemos nos basear.

Vou dar um exemplo. Uma das grandes pragas da nova era é a resistência à insulina, principalmente nesta época de pandemia. Estamos todos muito estressados com a nova rotina e com as incertezas do futuro. Isso nos leva a ingerir mais açúcar e seus derivados, como pão, massas, doces, etc. Por que? Porque o estresse gasta muita energia e os carboidratos são fontes rápidas de prazer, recompensa e energia. Porém isso sobrecarrega o pâncreas a produzir um hormônio chamado insulina. Esse hormônio é responsável por transportar toda a glicose sangüínea para o interior celular, o que ajudará na obtenção de energia para todas as nossas funções metabólicas. Porém o excesso na produção de insulina gera um bloqueio no receptor da entrada da glicose, que será acumulada no fígado e intra visceral como gordura. Isso também produz uma disfunção no sistema imune. Ou seja, índices de insulina acima de 6 geram inflamação crônica subclínica e uma série de outras doenças crônicas, como diabetes, mesmo estando no parâmetro da normalidade.



Claudia Klein é médica neurologista, graduada pela Faculdade de Medicina do ABC, com residência em Neurologia e Clínica Médica na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, e pós-graduada em Ciências da Longevidade Humana pelo grupo Longevidade Saudável. Faz atendimento clínico e é palestrante nas áreas de neurociência e meditação.



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