Virando a mesa no Zenta: da inquietação e do desconforto para a busca pela leveza e felicidade



ZENTA: Qual foi a sua grande "virada de mesa"? O que mudou?

ABRÃO MELNIK: A grande virada que eu tive foi poder fazer a transformação de deixar de fazer o esforço que eu fazia para mostrar o que eu queria que os outros vissem em mim, e não aquilo que era realmente quem eu era. Existia um grande esforço. A imagem

que eu podia usar era como se, de manhã, quando eu fosse sair de casa, eu

vestisse aqueles bonecos de Olinda de 3 metros de altura, e eu saísse carregando aquilo para que os outros me vissem com aquele tamanho enorme, que não era o tamanho que eu tinha. Isto me fazia ter um gasto, um esforço de energia enorme e acho que virou um peso e, em um determinado momento, teve uma manifestação disso e eu passei a olhar para essa questão.

A virada de mesa foi eu deixar de ser um empresário de sucesso, que trabalhava muito, para me tornar um psicoterapeuta e um consultor de empresas que usa a minha trajetória, o meu caminho de transformação, para ajudar as pessoas e as organizações a se transformarem e ficarem melhores. E, principalmente, fazer essas coisas como terapeuta e como consultor sem esforço, com leveza, com alegria.

Z.: Em que idade e fase da sua vida isso ocorreu?

A.M.: Então, isso aconteceu quando eu completei 55 anos. Eu estava no auge da minha carreira profissional como empresário, a empresa estava tendo sucesso.

Z.: Como foi o processo para essa mudança?

A.M.: Em uma atividade que fiz em um grupo de empresários, tive uma vivência e senti uma tristeza profunda. Eu não entendia porque me dava essa tristeza, fiquei

praticamente uma semana deitado, como um bebê na cama, e aí comecei a procurar

ajuda, a fazer terapia. Depois, o terapeuta me orientou a fazer um curso de

pós-graduação que ele fazia, que tinha muitas vivências. Eu, então, comecei a cursar

e, após dois anos, encontrei uma escola de desenvolvimento pessoal em que eu

tive a possibilidade de começar a descobrir quem eu era e porque eu fazia as

coisas do jeito que eu fazia, e o que eu buscava com isso. E, quando eu me dei

conta disso, eu falei “chega, não quero mais isso para mim, não quero carregar

esse peso que me deixa nesse estado triste, porque estou me afastando de quem

eu sou”. E resolvi começar a fazer as mudanças que eu queria. E a mudança era

que eu não precisava mostrar essa grandeza, essa necessidade de me reconhecerem

com alguém importante, alguém que tem sucesso, e poder ser eu mesmo.

Z.: Quais as principais dificuldades que enfrentou?

A.M.: As dificuldades que eu encontrei eram com as pessoas com quem eu me relacionava, principalmente a minha primeira esposa e os sócios que eu tinha na empresa, que não queriam que eu mudasse. Para eles, era confortável que eu ficasse do jeito que eu era porque trazia muito benefício por meio dessa minha ação, de mostrar resultados e tudo... Eles simplesmente preferiam que eu ficasse como sempre fui. E aí eu precisei me afastar deles. Eu me separei e saí da sociedade.

Z.: Quais os principais apoios/companhias/inspirações para conseguir?

A.M.: Os apoios que eu tive, na verdade, é que todas as atividades eram em grupo, menos a terapia, que era individual. Mas todas as formações terapêuticas que eu fiz e

todas as vivências dentro dessa escola que eu participei por muitos anos eram

em grupos e isso vira como se fosse uma família. Você encontra irmãos de alma,

que passam pelas mesmas agruras e dificuldades e compartilhamos intimidades. E,

além disso, tinha um mestre, que era quem inspirava a gente a seguir esse

caminho, que foi o Claudio Naranjo. E um outro apoio, que foi surpreendente

para mim, foi que meu filho menor, o Renato, começou a me acompanhar nisso. Começou a ver que eu estava mudando, ficou curioso e começou a vir. E aí a gente teve

um período de vivência dentro dessas formações e dentro desses retiros que a

gente fazia, de poder resgatar coisas íntimas entre pai e filho, o que foi muito

bom para ele e muito bom para mim também.

Z.: E os maiores benefícios que conquistou?

A.M.: Os benefícios que eu tive, quando eu me livrei do esforço que eu fazia (como a estátua da foto abaixo, de carregar o mundo nas costas), foi que as coisas ficaram mais leves. Recuperei minha espontaneidade. Eu passei a ser quem eu sou e, principalmente, recuperei a alegria. A tristeza que eu sentia foi se esvaindo, indo embora. Então, hoje eu estou leve, estou espontâneo, estou alegre, estou feliz.

Z.: O que você falaria para alguém que pensa em "virar a mesa"?

A.M.: Eu falaria pra alguém que está buscando virar a mesa que, para fazer isso, tem que ter um desconforto importante. Se você sentir que está tudo bem, isso nunca vai acontecer. Mas se você olhar pra dentro e vir que existe uma inquietude, uma angústia, uma inquietação, é porque alguma coisa não está legal e aí, se você passar a olhar para isso, você pode perceber qual é a questão. A partir daí, virar a mesa passa a ser uma coisa que pode vir a acontecer de forma mais fácil.




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