Psicologia
Síndrome de Burnout: conheça os sintomas, as formas de prevenção 
e o que mudou na definição 
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ENTREVISTA: GISELE VENTURA ESSOUDRY, PSICÓLOGA 

A psicóloga Gisele Ventura Essoudry esclarece a respeito da relação entre a Síndrome de Burnout e o trabalho nas empresas

 

ZENTA: O que mudou na definição do burnout?

 

GISELE VENTURA ESSOUDRY: Em conferência da OMS (Organização Mundial da Saúde) ocorrida em 2019 foram realizadas alterações na Classificação Internacional de Doenças (CID), que passaram a vigorar em janeiro de 2022, a CID 11. Tais alterações incluem os transtornos e condições próprias da atualidade, como compulsão por games, covid, sexualidade e a síndrome de burnout. 

Até então, a síndrome de burnout era considerada um problema de saúde mental e um quadro psiquiátrico. 

Porém, a partir de 2022, a síndrome foi oficializada como “estresse crônico de trabalho que não foi administrado com sucesso''. 

 

Z.: O que muda para as empresas?

 

G.V.E.: A mudança impacta nos processos trabalhistas relacionados ao tema. Se o funcionário recorrer à justiça por causa de esgotamento, com as devidas provas, a empresa pode ser responsabilizada. Na justiça, a responsabilização da empresa será avaliada a partir de laudo médico comprovando o burnout, junto com histórico profissional, avaliação do ambiente de trabalho e coleta de testemunhos. Com isso, os empregadores devem ficar mais atentos e cuidadosos com o ambiente e investir nos cuidados com a saúde mental do colaborador. 

 

Z.: Quais são os principais sintomas?

 

G.V.E.: São os seguintes:

Exaustão emocional 

Sentimento constante de fadiga e de que faltam recursos emocionais para lidar com as situações. O profissional se sente sem energia e há perda de entusiasmo. 

Despersonalização

É o que diferencia o burnout do estresse. É uma indiferença em relação ao trabalho, é uma atitude negativa em relação à empresa, colegas, líderes, clientes e tudo que é relacionado ao trabalho.

Sentimento de falta de realização

O trabalhador se sente frustrado, desmotivado, constantemente insatisfeito. Sentimento de incompetência e menos valia profissional. 

Habilidades cognitivas afetadas 

O trabalhador se sente incapaz de resolver problemas e de raciocinar. A autoestima fica abalada e muitos tentam se esforçar mais, exigindo mais de si e piorando o quadro.

Ansiedade 

E, consequentemente, sono afetado, irritabilidade, dificuldade de concentração, erros, esquecimentos.

Isolamento 

Sintomas depressivos, baixa autoestima e sentimento de inutilidade, falta de vontade de interagir e de socializar.

Sintomas físicos 

Baixa imunidade, síndromes metabólicas, cefaleia, enxaqueca, doença cardiovascular, problemas intestinais, fadiga, falta de ar, taquicardia, tontura, etc.

O burnout é uma doença multifacetada e pode se apresentar de diferentes maneiras, de acordo com o indivíduo.

 

Z. Como prevenir o burnout?

 

G.V.E.: Autoconhecimento, saber dos seus valores para fazer escolhas condizentes. Reconhecer seus limites, preservar momentos de descanso e lazer, saber se posicionar e ser assertivo, evitar o perfeccionismo e a autocobrança exagerada . Terapia, atividade física, check up regular, relaxamento ou práticas meditativas são formas eficazes de prevenir o burnout.

 

Z.: Como a pandemia potencializou os problemas de saúde mental? 

 

G.V.E.:  A pandemia afetou profundamente a saúde mental da população do Brasil e do mundo. 

Situações de luto, terror, impotência, desemprego, crise financeira, falta de atendimento médico, desconhecimento do vírus, notícias tristes na mídia, futuro incerto, além de isolamento social e prejuízos pedagógicos.

Esse cenário trouxe efeitos devastadores na saúde mental das pessoas. Desencadeou crises depressivas, ansiedade, pânico, doenças psicossomáticas, vícios e compulsões como celular, jogos, álcool e substâncias. E potencializou situações de violência doméstica. 

Ainda que a situação geral já esteja se normalizando e as pessoas voltando à vida normal, ficaram os traumas e consequências. 

Sem dizer sobre as mudanças no mercado de trabalho (migração para o on-line, falências, cargos extintos). Muitas pessoas ainda não encontraram um lugar no mercado de trabalho, o que afeta não só o bolso, como a autoestima. 

Por outro lado, a tecnologia se desenvolveu. Muitas pessoas descobriram novas possibilidades no mercado de trabalho. 

Felizmente, o ser humano, de modo geral, conta com uma capacidade de adaptação, curiosidade natural e um desejo de se desenvolver e encontrar sentido na vida! 

Buscar o autoconhecimento e entender que cuidar da saúde mental não é luxo, mas uma necessidade, é o que certamente fará a diferença.

 

Z.: Como tratar?

 

G.V.E.: Caso a pessoa perceba algum sintoma de burnout, é importante procurar um apoio multidisciplinar, a psicoterapia ou um psiquiatra.

 

Gisele Ventura Essoudry é psicóloga, especialista em Saúde Mental pela Unifesp e orientadora de carreira.