ENTREVISTA: ALESSANDRA CATAP, PSICÓLOGA

ZENTA: Como será esse amanhã, esse "novo normal" de que tanto falam?

ALESSANDRA CATAP: Eu não consigo imaginar quantas vezes tenho escutado o termo “novo normal” e frases prontas, como "momentos de crise trazem boas oportunidades", "precisamos nos reinventar", "o mundo não será mais o mesmo", e assim por diante. Arrisco ainda em dizer que essas frases viraram clichês e acabam muitas vezes nos distanciando daquilo que a gente deveria se importar de fato.

O momento é frágil e ficamos tentando encontrar uma formula mágica para normalizar algo, mas que não temos a menor ideia de como.

 

Z.: Depois de sermos obrigados a desacelerar, como voltar a uma rotina? Como enfrentar o medo/estranhamento de sair na rua? E com a falta de perspectiva?

 

A.L.: Estamos passando por transformações bastante significativas como, por exemplo, implementação de novas tecnologias, mudanças climáticas, economia, diversidade, inovação e, somado a isso, a pandemia da Covid-19, que chegou de forma inesperada e nos convocou a pensar rapidamente em uma nova dinâmica emergencial de cuidados dentro e fora de nossas casas.

Existe um excesso de notícias sobre essa situação, mudanças repentinas em nossa rotina, distanciamento físico, consequências econômicas, sociais e políticas relativas ao novo cenário que levaram a um desconforto emocional coletivo, e o desafio de ter que “dar conta” não tem sido tarefa simples. Outro fator importante refere-se à interrupção súbita dos rituais em diversos âmbitos, como momentos especiais de celebração, ritos de passagem e perdas de entes queridos.

Ainda assim, observamos uma sensação de sobrecarga física e emocional, pois padrões e hábitos antigos não se encaixam mais no novo cenário, o qual, por sua vez, está em constante transformação, demandando ajustes psicossociais contínuos. Diante disso, observa-se com frequência o aparecimento de sentimentos e emoções como medo, tristeza, raiva e solidão, além de ansiedade e estresse.

Sempre quando nos vemos diante de situações externas que não controlamos, tendemos a entrar em um processo de tensão e ansiedade e, consequentemente, descontrole do nosso mundo interno. Conviver com o fato de que nem tudo que está planejado vai acontecer na íntegra pode ser bem recebido por uns e ser encarado com um grande tormento por outros. Por isso, olhar de frente para essas mudanças, sustentá-las e dialogar com suas emoções e desconfortos internos, sem negar o que se sente de fato, são recomendações pertinentes, ou seja, encontrar estratégias de enfrentamento, incluindo escolhas mais saudáveis. Paciência, tolerância, criatividade e adaptação serão palavras chaves que podem contribuir com a manutenção do equilíbrio físico, mental e emocional.

Para a nossa psique, não existe certo ou errado. Existe a realidade particular de cada um que está alicerçada por valores, desejos e a história de vida. A pandemia, sem sombra de dúvidas, vai deixar marcas em cada um de nós. O que vamos fazer e como iremos conviver com elas será um desafio pessoal.

 

Z.: Seremos seres humanos transformados? Quais devem ser as principais mudanças?

A.L.: A preocupação com práticas mais conscientes e impactos no planeta, a revisão no modelo de consumo, a presença maior do mundo digital, a diminuição de viagens corporativas, a preferência por trabalho no modelo de home office. Os shoppings centers não serão mais um templo de convivência e consumo, existirá uma maior disposição das pessoas de comprar roupas e objetos usados, o setor de fitness e wealth on line será tendência daqui para a frente.

Cada vez mais as pessoas percebem que podem mais com menos, e tudo isso, possivelmente, será também fruto de toda essa crise. Destaco ainda que, devido ao home office, a mobilidade urbana está mais fluida e hoje já é possível reparar como o céu está mais limpo e estrelado. Esse cenário atual me fez lembrar a frase do livro "O pequeno príncipe", de autoria de Antoine de Saint-Exupéry, que cita “O essencial é invisível aos olhos”.

Penso eu que a retomada das atividades pós-pandemia será gradativa e, segundo pesquisadores, após um pico de felicidade segue um considerável número de casos de depressão e ansiedade, seja pelas perdas de pessoas próximas, por questões financeiras, por dúvidas sobre como será o amanhã e também pelo tempo que passou e não volta mais.


 

Z.: Como posso me preparar e instrumentalizar para essa volta?

A.L.: Até que tenhamos uma vacina, a vida não será a mesma. Vamos ter uma transição de mudança de comportamento que será assimilada por cada um de nós de forma muito particular. Um primeiro passo é estarmos cientes de que, passada a crise, nada voltará a ser como antes e penso que a crise será uma forma de acelerar as mudanças que eram necessárias e estavam por vir.

Por fim, sigo aqui com algumas recomendações: protejam-se, fiquem em casa e busquem informações seguras sempre. Mantenha sua análise/psicoterapia. Se você ainda não faz, está aí um ótimo momento para começar. Afinal o processo de autoconhecimento te ajudará a colocar os pés no chão e atravessar essa fase de uma maneira mais tranquila.

E, para concluir o pensamento acima, finalizo com uma frase do respeitável filósofo Leandro Karnal: "Seja feliz, não espere o futuro, não dá para acreditar que a felicidade será sempre adiada para um próximo momento”.

 

Alessandra Catap é psicóloga e psicanalista.

Retomada da rotina
Paciência, tolerância, criatividade e adaptação serão palavras-chave para o equilíbrio físico e emocional
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