Quarentena x rotina 
Criar uma programação diária e fazer algo que você gosta ajudam a amenizar efeitos do isolamento

ENTREVISTA: MARINA HALPERN-CHALOM, PSICÓLOGA

 

Portal Zenta: O que você acha sobre essas sensações e sentimentos, essa ansiedade que estamos vivendo hoje? 

 

Marina Chalom: Cada um está enfrentando um tipo de desafio. Acho que esse é um momento de grandes desafios. As pessoas acabam tendo de lidar com questões delas mesmas. Elas não estão no ritmo tradicional do dia a dia e isso acaba levando a enfrentar questões para as quais, às vezes, elas não estavam olhando ou são novas que se colocam. 

 

Z.: Nessa sobrecarga acaba aparecendo, por exemplo, o trabalho doméstico, que se soma a uma infinidade de atividades disponíveis neste momento, como centenas de "lives" por dia, cursos gratuitos, visitas virtuais. O que você acha de estabelecer certas metas pequenas, possíveis, e ir passando para a próxima assim que cumpri-las? Pessoas comentam que há tantas coisas à disposição que se sentem "inundadas" por aquele sentimento de que não vão conseguir "abraçar o mundo". 

 

M.C.: Acho que isso é um ponto, mas, antes de poder se abrir para o que está sendo oferecido, temos que pensar que, além do trabalho doméstico (em que muitas vezes tinha ajuda e não tem mais), quem trabalhava fora teve de passar por uma adaptação. Isso porque, apesar de estar em casa, a carga de trabalho, a adaptação para esse novo cenário, organizar os materiais novamente para passar para o ambiente virtual, principalmente para quem está "no zenta", também constituem desafios. Então, tudo isso consome bastante energia, é uma sobrecarga por si só. 

 

Além disso, para quem tem essa disponibilidade, há muita coisa sendo oferecida. Então se abre um universo inteiro de coisas muito divertidas, muito legais, mas que sobrecarregam e causam uma pressão de "puxa, olha tudo o que eu tenho para fazer", para quem tem esse perfil. Por outro lado, tem gente que acaba se sentindo isolado, sozinho. 

 

O que ocorre é que cada um acaba acirrando a sua própria questão. Ou seja, quem já tem esse perfil de querer fazer muitas coisas acaba ficando meio perdido nesse cenário. Quem tem uma tendência mais depressiva vai puxar mais para o ”estou sozinho”. Acaba disparando ansiedade para que já é muito ansioso, o pânico, muitas vezes, de pessoas que ficam o tempo todo conectadas nas notícias e no lado assustador desse nosso cotidiano atual. Cada um corre o risco de ter as suas próprias questões acirradas. 

 

Z.: Em relação a isso, é possível dar uma orientação, uma dica para a pessoa partir para uma certa análise do seu próprio perfil e tentar atenuar um pouco esses efeitos? Como lidar melhor com isso, tanto aquele que está perdido em relação a tantas atividades disponíveis, como para aquele que já é ansioso, que está em um cenário difícil, e não para de ouvir notícias ruins?

 

M.C.: Se eu pudesse falar alguma coisa para todas as pessoas, e isso vem sendo bastante discutido, o ponto principal seria manter uma rotina, porque essa situação tende a nos tirar dela. Então, o momento de acordar, de almoçar, de ter horários para cada coisa. Isso, por si só, já é um organizador. Assim, dentro do possível, criar uma rotina e aí cada um, dentro do seu perfil, vai ter que se adaptar a ela. Assim, aquela pessoa que quer fazer muitas coisas vai ter que selecionar, dentro do horário que ela estipulou, o que vai fazer naquele dia, naquele período. Terá que ver o que vai priorizar naquele dia. Pessoas que são muito ansiosas e que ficam vendo notícias o tempo todo podem criar um horário para isso. 

 

Z.: Ou seja, ela vai definir se vai ver de manhã é à noite, ou se vai assistir apenas em um  horário, por exemplo? 

 

M.C.: Exato. A gente também corre o risco de ir entrando em todas as correntes que vão surgindo e aí vamos nos perdendo, fica uma sensação muito ruim. Ter um tempo para o  exercício físico, que também é um organizador, porque estamos muito parados, sem andar, sem sair. É muito importante manter o corpo funcionando, ainda mais "no zenta". 

 

Também guardar um tempo para fazer uma coisa de que gosta, algo que dê prazer, dentro do possível. Cuidar das questões básicas de manutenção da saúde física ajuda na manutenção da saúde mental. Rotina, exercícios, alimentação: garantindo isso, você já sai lá da frente! 

 

Z.: Eu tenho ouvido de algumas pessoas que comentam que, de repente, tiveram que assumir todo o trabalho doméstico, além das atividades que normalmente fazem, o home office, e daí querem deixar tudo impecável. Há quem pense que, por ter de ficar em casa, está obrigado a isso. Por esse motivo, perguntei das pequenas metas.

 

M.C.: Se você coloca uma rotina com os tempos, priorizando o que é mais importante para você, vai ter aquele tempo para a tarefa que precisa fazer. Então, se a tarefa é arrumar armário, você terá aquele horário estipulado para isso. Se você definiu meia hora para essa atividade, qual é o armário que vai arrumar naquele dia? Quando as coisas são organizadas em uma rotina, ajuda, porque a gente acaba tendo que priorizar. Sempre na vida a gente tem que priorizar, mas agora, talvez, isso fique mais evidente. Então, na hora em que você se organizar em uma rotina, você tem um tempo determinado para aquilo. Como eu quero aproveitar o meu tempo hoje? Amanhã tem de novo, tem um outro tempo que eu posso separar para isso, mas hoje eu vou ter que escolher o que eu farei hoje. De novo, cada um dentro dos seus desafio. Pode parecer que as coisas não têm limite por estarmos em casa, mas ele precisa existir. Se não tiver esse cuidado de estabelecer o limite, posso ficar trabalhando até mais tarde, posso ficar arrumando a casa inteira, ficar limpando, e aí gera aquela sensação de frustração. 

 

Z.: Sem dúvida! Às 21 horas você ainda está lavando louça, está trabalhando, não para nunca. 

 

M.C.: Então o planejamento entre o que eu quero e a ação, dentro do que é possível, precisa estar mais aproximado. A gente está em um momento da pandemia em que as pessoas estão percebendo que não deu para fazer tudo o que elas queriam. É importante se apropriar disso, de que eu me perdi, hiper dimensionei, para não ficar todo dia com a sensação de frustração. Essa sensação de frustração de hoje tem que me servir para me planejar melhor amanhã.

 

Marina H. Chalom é psicóloga formada pela USP, mestre pela USP em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano, especialista em Psicologia Clínica, professora da Universidade Paulista e atua em clínica particular há 25 anos.

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