Psicologia - Sensações

Sozinhos ou em família, as sensações do #fiqueemcasa, especialmente "no zenta"

 

Conversamos com Marina H. Chalom, psicóloga, professora universitária e mestre pela USP em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano, que compartilhou orientações valiosas para essa fase de isolamento. Confira:

 

 

Z.: Como você está vendo o pessoal que está em casa, tanto as pessoas que estão sozinhas no isolamento quanto as pessoas que estão com a família inteira dentro de casa? 

 

M.C.: Eu vejo esses dois cenários de forma diferente, é claro. Em relação às pessoas que estão em casa com a família, tem uma questão boa de você ter uma casa, de estar na sua casa (para quem tem essa possibilidade), tem um lado muito bom. Falo isso porque há inúmeras pessoas que não têm como se sustentar diante dessa realidade econômica, mas essa é uma outra discussão, outra angústia. Mas falando daqueles que estão em casa, com a família, estão vivendo uma situação bastante incomum. Com uma convivência de 24 horas por dia, em que aquilo que normalmente incomoda (porque sempre há coisas que a gente gosta e outras que nos incomodam na vida familiar, com filhos, cônjuge) fica mais intenso. Então, se faz necessário ter uma sabedoria ou um cuidado especial nessa relação para conseguir sustentá-la de uma forma positiva e criativa. 

Então, uma sugestão prática é se sentar junto para dizer que aquilo realmente é uma coisa que incomoda, ter um diálogo como "a gente vai conviver durante muito tempo, vamos ver como a gente consegue equacionar isso da melhor maneira possível?", se abrir. Importante contar com uma boa vontade de cada uma das partes,

Às vezes também, como muitas tarefas então se colocando na vida das pessoas, alguém pode se sentir sobrecarregado, achar que o outro está folgado, então também vale combinar as divisões de tarefas para esse sentimento ficar mais diluído. E, assim, conseguir aproveitar o lado bom dessa convivência, que é fazer coisas juntos o que antes não dava tempo, é poder aproveitar a companhia uns dos outros.

 

Z.: Talvez até descobrir coisas novas para fazer, como cozinhar juntos?

 

M.C.: Sim, trazer o lado bom. Tentar ver o lado criativo, exatamente, poder cozinhar juntos, jogar um jogo, ver um filme,  coisas que às vezes não dá para fazer, ler um livro, eventualmente com os filhos, aproveitar a companhia dos outros e dar atenção ao que, no dia a dia, a gente acaba não conseguindo fazer. Cientes de que as coisas têm os dois lados, devemos tentar aproveitar o lado positivo e contornar o lado negativo. Assim, dentro dessa convivência familiar, quanto mais se puder combinar, definir, ter as funções de forma mais clara, melhor. Porque eu posso me sentir sobrecarregada e, às vezes, o cônjuge e os filhos também estão. 

 

Z.: E para a pessoa que realmente está sozinha em casa, que está com todas essas preocupações na cabeça e que não tem tanta gente para interagir, o que a gente poderia dar de orientação? Essa interação via zoom, Facetime ou plataformas semelhantes, para que possa ver amigos e familiares, adianta, contribui?

 

M.C.: Para a pessoa que mora sozinha a interação é extremamente importante, todo mundo precisa de interação. Então na hora em que você não pode estar com outros, você tem que criar oportunidades. Isso também pode estar dentro da rotina. Você pode combinar um horário com um grupo de amigas, outro para fazer uma chamada com a família. Somos seres relacionais, é muito importante interagir. Evidentemente que só ir ao mercado (para aqueles que estão saindo para isso) já é uma forma de fazer isso, mas não é o suficiente. De alguma maneira a gente precisa interagir para garantir as coisas do nosso dia a dia. Vale tentar descobrir alguma coisa de que gosta, tentar se engajar em alguma atividade que seja significativa para dar um sentido para esse momento.  

 

Não adianta ficar vivendo esse momento esperando ele acabar, esperando que tudo volte ao normal. Acho que essa é uma grande questão, porque o tempo passa, a gente vai ficando para trás e as coisas vão voltar para um outro normal, que ainda desconhecemos. Muito provavelmente as coisas não vão voltar a ser como eram, com tudo de bom e tudo de ruim disso. 

 

Z.: Sim, há quem tem falado de um "novo normal". Quer dizer que muita coisa vai mudar, na rotina, no relacionamento, no lazer. 

 

M.C.: Exatamente. Uma outra questão que eu digo é não ficar esperando tudo voltar ao normal, faça do agora um momento em que você possa tirar o seu  potencial criativo e vá administrando todas as dificuldades que ele também traz. Então, como isso vai ser na vida de cada um, cada um vai ter que chegar nessa equação. Mas o que eu queria fazer antes e não dava tempo, pensar em como eu consigo criar oportunidades de fazer isso acontecer. Tudo isso nos tira da zona de conforto, inevitavelmente. E estar ciente de que é assim para todos, que não há ninguém nela, que estamos todos nesse mesmo barco. E aí, cada um tem que pegar o leme do seu próprio. 

 

Marina H. Chalom é psicóloga formada pela USP, mestre pela USP em Psicologia da Aprendizagem e do Desenvolvimento Humano, especialista em Psicologia Clínica, professora da Universidade Paulista e atua em clínica particular há 25 anos.

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