Série Fragmentos da Memória homenageia o teatro brasileiro




Hoje faremos um recorte dos pioneiros do século XX e convidamos você a escrever essa história conosco.


Se pensarmos no início do teatro brasileiro, teríamos que voltar aos anos de 1500 ou, ao menos, à década de 1810, quando Dom João VI, decretou a construção de teatros no País (apesar de alguns pequenos já existirem). Mas vamos focar nos pioneiros do século XX.


Nelson Rodrigues (1912-1980) é considerado pela crítica o mais influente dramaturgo do Brasil. Sua consagração veio com a segunda peça, "Vestido de Noiva", apresentada no RJ em 1943 e encenada pelo grupo "Os Comediantes", dirigido por Zbigniew Ziembinski, recém imigrado da Polônia. Ele mesmo classificava seu teatro como "desagradável". A verdade é que, provocativo, não deixa ninguém indiferente, despertando sentimentos diferentes como ódio, repugnância e admiração. Assinou contrato de exclusividade com Procópio Ferreira para a produção de diversas peças. Escreveu 17 textos para teatro.


Dias Gomes (1922-1999) foi teatrólogo, romancista e contista, além de membro da Academia Brasileira de Letras. Poucas peças foram tão premiadas como "O Pagador de Promessas". Consagrado nacional e internacionalmente, sua atuação pela liberdade de expressão lhe causou algumas demissões e muita censura.


Já um dos maiores nomes do teatro brasileiro, segundo grande parte da crítica, Paulo Paquet Autran (1922- ) se formou pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Chegou a trabalhar na área, até que, ao conhecer a atriz Tônia Carrero, mudou de profissão. Em 1952, ganha o Prêmio Saci, oferecido pelo jornal O Estado de S. Paulo, de melhor intérprete. Recebe o mesmo prêmio pela atuação em "Na Terra Como No Céu", de Franz Hochwalder, e "Assim É… (Se Lhe Parece)", ambos de atuações em 1953. Estréia ao lado de Bibi Ferreira em "My Fair Lady", 1962. Em 1964, com Maria Della Costa, está em "Depois da Queda", de Arthur Miller, direção de Flávio Rangel, para o Teatro Maria Della Costa (TMDC), recebendo o Prêmio Associação Paulista dos Críticos Teatrais (APCT), de melhor ator. Monta sua própria companhia e, em 1966/67, percorre o Brasil com uma encenação de Flávio Rangel para "Édipo Rei", de Sófocles, ao lado de Cleyde Yáconis. Filma "Terra em Transe", de Glauber Rocha. Em 1970 faz o show "Brasil e Cia." e, no mesmo ano, integra uma controvertida montagem de "Macbeth", de William Shakespeare, com direção de Fauzi Arap. Antunes Filho o dirige no espetáculo "Nossa Vida em Família", de Oduvaldo Vianna Filho, 1972. Vive Quixote no musical "O Homem de la Mancha", de Wasserman, novamente com Bibi Ferreira, bem como o protagonista de "Coriolano", de William Shakespeare, direção de Celso Nunes, em 1974. Recebe o Prêmio Mambembe de melhor ator em “A Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller, encenação de Flávio Rangel, 1977.


As damas do teatro são muitas. Destacamos apenas algumas delas:


Cacilda Becker (1921-1969), ainda menina, estudava dança e trabalhava para manter a casa. Interpretou vários papéis distintos nas peças: "Pega Fogo", "Jornada de um Longo Dia para Dentro da Noite", "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf", "Maria Stuart", "Esperando Godot". É considerada, por alguns críticos, a maior atriz do teatro brasileiro.

No Teatro das Segundas-Feiras estreou com grande sucesso. Atuou em "Seis Personagens à Procura de Um Autor", de Luigi Pirandello, e "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas Filho, encenação de Luciano Salce, ambos em 1951. No ano seguinte, em "Antígone", de Sófocles (1º ato) e de Jean Anouilh (2º ato). Em 1955, se apresentou com a irmã, Cleyde Yáconis, em "Maria Stuart", de Schiller, com direção de Ziembinski.


Bibi Ferreira (1922-2019), filha do ator Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo, faz sua estreia no teatro ainda bebê! Com apenas 20 dias, aparece na peça "Manhã de Sol", no colo de sua madrinha. Bibi nunca aceitou papéis em telenovelas, pois não se sentia à vontade nessa mídia. Na década de 1960 estrela dois musicais memoráveis: "Minha Querida Lady" ("My Fair Lady"), de Frederich Loewe e Alan Jay Lerner, baseado em Pigmaleão, de George Bernard Shaw, ao lado de Paulo Autran e Jayme Costa, e "Alô Dolly!" ("Hello Dolly!"), adaptado a partir de "The Matchmaker", de Thornton Wilder, com Hilton Prado e Lísia Demoro. Nos anos 1970 atua em outro musical importante, "O Homem de La Mancha", de Dale Wasserman, com letras versadas por Chico Buarque. Como Aldonza/Dulcinéa, a prostituta que inspira D. Quixote, atua ao lado de Paulo Autran e Grande Otelo, com direção de Flávio Rangel. Em 1975 recebe o Prêmio Molière pela personagem Joana, de "Gota D’Água", de Paulo Pontes e Chico Buarque, adaptação da tragédia Medéia, de Eurípedes, para os morros cariocas. Em 1983, após cinco anos ausente do palco, volta em Piaf – A Vida de uma Estrela, em que vive a cantora francesa Edith Piaf, um marco em sua carreira. Na virada do milênio, personifica a fadista Amália Rodrigues em Bibi Vive Amália.


Nascida no mesmo ano que Bibi, Tônia Carrero (1922-2018) sempre foi referência de beleza, inteligência e talento na história do teatro brasileiro. Fez dupla com Paulo Autran em diversos espetáculos, e tudo começou ao vê-lo no palco em 1949, quando o convidou para assisti-la na estreia de "Um Deus Dormiu lá em Casa", de Guilherme Figueiredo, sob direção de Silveira Sampaio. Em 1967 mergulha no universo de Plínio Marcos em "A Navalha na Carne", uma montagem que incomoda a ditadura militar e se torna divisor de águas em sua carreira. Mãe do ator Cecil Thiré.


Ainda na década de 1920, destacamos Laura Cardoso (1927-) e Fernanda Montenegro (1929-). Filha de imigrantes portugueses, a garota Laurinda de Jesus Cardoso nasceu no bairro do Bixiga, em São Paulo. No Programa Camarim em Cena, Itaú Cultural, a atriz declarou seu amor pelo ofício: “Amo representar, amo ler a peça de teatro, amo estar me mostrando para o público. Acho que gostei de tudo o que fiz”, conclui.

Ainda que tardia, a carreira de Laura Cardoso nos palcos foi marcada por grande sucesso. Foram dois prêmios Shell de Melhor Atriz: o primeiro, pela atuação na peça "Vem Buscar-Me que Ainda Sou Teu" (1990), com texto de Carlos Alberto Soffredini e Villela, e o segundo pelo papel em "Vereda da Salvação" (1993), com texto de Jorge Andrade e direção de Antunes Filho.


Fernanda Montenegro (1929-) é considerada pelos críticos uma das personalidades mais destacadas no campo das artes cênicas. De 1966 a 1968, atuou em quatro espetáculos, dirigida por Fernando Torres, e recebeu o Prêmio Molière por "A Mulher de Todos Nós" (1966), de Henri Becque (1837-1899), e por "O Homem do Princípio ao Fim" (1967), de Millôr Fernandes (1923-2012). Na década de 1980, seu espetáculo mais marcante foi "As Lágrimas Amargas de Petra von Kant" (1982), de Fassbinder (1945-1982), pelo qual recebe os prêmios Molière e Mambembe. Cinco anos depois, seu desempenho é novamente destaque em "Dona Doida, Um Interlúdio" (1987), de Adélia Prado (1945), valendo-lhe o Prêmio Molière. Em 1993, sobe à cena com a filha Fernanda Torres para fazer uma cena sobre a relação maternal em "The Flash and Crash Days – Tempestade e Fúria", de Gerald Thomas.


Marília Soares Pêra (1943-2015) filha de atores, começa a representar com quatro anos. Dos 14 aos 21 anos faz carreira como bailarina, participou de musicais e revistas - entre eles, "Minha Querida Lady", protagonizado por Bibi Ferreira, em 1962, e "O Teu Cabelo Não Nega", biografia de Lamartine Babo, em que ela faz sua primeira interpretação de Carmem Miranda, 1963. Em 1968, atua em "Roda Viva", musical de Chico Buarque. Em 1986, dirige, coreografa e produz "O Mistério de Irma Vap", de Charles Ludlam, um enorme sucesso que permaneceu por muitos anos em cartaz, com Marco Nanini e Ney Latorraca.


E você, tem alguém que gostaria de incluir nessa lista de pioneiros? Escreva nos comentários!



Fontes: Funarte, Academia Brasileira de Letras, Estadão, Instituto Moreira Salles, Itaú Enciclopédia Cultural

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